OBRIGADO PELA VISITA

OS RUINS NÃO SÃO BONS PORQUE OS BONS NÃO SÃO MELHORES

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS

Plínio Delphino, Diário de São Paulo.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou um mês como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:' Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador. O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz. No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar. O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado. E depois de um mês trabalhando como gari? Isso mudou? Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
“Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida”!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

SENTINDO NA PELE

Neste último final de semana partilhei junto com algumas pessoas que Deus me presenteou, momentos de grande alegria. Curtimos o domingo junto à natureza em um parque público, localizado em uma area privilegiada no bairro do Tatuapé, capital de São Paulo, denominado "Parque do Piqueri". Tinha tudo para ser perfeito, não fosse o descaso daqueles que tem a missão de cuidar da coisa pública, no caso a prefeitura. Não há naquele local o minimo básico com relação a infra-estrutura necessária para receber portadores de deficiência, especificamente de cadeirantes. Não fosse o ambiente acolhedor, não fosse a fantástica família da pessoa portadora de deficiência, que com muita garra e alegria procurou não esmorecer diante dos inúmeros obstáculos, e não fosse a força de superação da minha grande amiga Marcia, tudo teria ido para o ralo. Diante disso, o minimo que devemos fazer é unir forças para exigir daqueles que tem e recebem por missão a tarefa de devolver em forma de serviço e equipamentos os enormes tributos que pagamos. Se esse tema lhe inquieta o que você gostaria de partilhar?

A integra desse grito pode ser encontrada no enderêço: http://marciapitelli.blogspot.com/

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A VERDADE

Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamante ser levado pelas águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancara o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margarida. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse:
- Agora me lembro, não era um homem, eram dois.
E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse:
- Então está com o terceiro!
Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram, e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela.
- Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida - gritaram os aldeões. - Matem-no!
- Esperem! - gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. - Eu não roubei o anel. Foi ela quem me deu!
E apontou para a donzela, diante do escândalo de todos.
O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo "Já que meus encantos não o seduzem, este anel comprará o seu amor". E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.
Todos se viraram contra a donzela e gritaram: "Rameira! Impura! Diaba!" e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço.
Antes de morrer, a donzela disse para o pescador:
- A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?
O pescador deu de ombros e disse:
- A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.

Luiz Fernando Verissimo

quarta-feira, 17 de março de 2010

SOLIDARIEDADE ECONOMICA

“Daí-lhes vós mesmos de comer”
Mateus 14, 13-21
Uma das experiências que me marcou muito vem do tempo em que colaborávamos com a preparação da catequese infantil para o Sacramento da Eucaristia. Na tentativa de transmitir o sentido da partilha que Cristo nos deixou, conforme o descrito em Mts. 14,13-21, e após uma preleção, levamos as crianças para um recinto onde havia uma mesa central contendo bombons, na quantidade exata de um para cada um. Após uma oração com todos, deixamos o local e ficamos assistindo de fora (sem que eles nos vissem) qual seria o comportamento da cada um. Teve um pouco de tudo. Teve aquele(s) que pegou mais que um e comeu sem querer saber do próximo. Teve aquele que não comeu porque não foi ágil para pegar. Teve aquele que pegou e guardou. O que nos chamou atenção foi o comportamento de alguns que pegaram o seu, olharam ao redor, perceberam quem nada tinha e realizaram o milagre da partilha colocando o que tinha em comum. Foi em cima desses gestos que conseguimos transmitir na prática do cotidiano o sentido da comum-união, a comunhão inaugurada por Cristo. Um dos pontos centrais da campanha da fraternidade deste ano, com o tema Economia e Vida, aborda a questão que no meu ver é a chave do segredo do amor cristão: a solidariedade. Há um refrão de um canto que por muito tempo animou as comunidades que dizia que “bastariam dois pães e dois peixes e o milagre do amor pra acabar com tanta fome, pra acabar com tanta dor.” O milagre da eucaristia não é o do imunizar os comungados, mas torná-los co-responsáveis para com seu próximo. Os atuais cadernos de economia dos jornais de todo mundo apresentam os maiores milionários do planeta. Dentre os primeiros figura o empresário Eike Batista, conforme o caderno Dinheiro da Folha de São Paulo de 11/03/10, do Grupo EBX, que teve um aumento de US$ 19,5 bilhões no seu patrimônio e se tornou o oitavo homem mais rico do mundo, com US$ 27 bilhões (metade do PIB equatoriano), segundo a revista "Forbes", a primeira vez nos últimos anos em que um brasileiro aparece entre os 50 mais ricos. A notícia dá conta que em 2009, ele apareceu na 61ª posição. No outro extremo, em contraste absurdo o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, apontou que em 2007 existiam no Brasil 10,7 milhões de indigentes e 46,3 milhões de pobres no nosso pais. A lógica do sistema capitalista que vivemos contraste escandalosamente com a lógica de Cristo. Para Cristo o centro das relações humanas esta na solidariedade, na partilha, no colocar em comum. Esta campanha da fraternidade procura reforçar e nos convidar a busca de soluções alternativas a essa cultura do acumulo e exclusão em que vivemos. “E todos repartiam o pão e não havia necessitados entre eles” (At.4,35). Não se trata de querer fomentar um embate social contra e nem a favor de ninguém, mas sim alertar sobre a direção e o caráter que damos em nossas relações interpessoais. O texto base aponta para experiências motivadoras com o nome de “economia solidária”, que longe do que muitos pensam, não é um simples gesto de ”troca de moeda”, mas de viver de outra maneira, de forma solidária, principalmente, com os “não contados e excluídos”. Um dos vários exemplos positivos que se tem conta data de 1995, na Argentina, chamado de Clube de Trocas da Argentina, onde pouco mais de duas dezenas de pessoas o formavam. No período de 1995 e fins de 2001, foi essa atividade que permitiu dar de comer, vestir, promover saúde, turismo e bem estar a milhares de famílias pauperizadas pela crise que abatia o pais visinho, segundo a bióloga Heloisa Primavera, Segundo ela graças a essa iniciativa popular é que “foi possível trocar de vida com economias solidárias, em particular com essa forma particular de articulações de grandes grupos que usavam uma moeda social para combater a exclusão na qual haviam sido lançados pela economia formal”. O desafio está lançado para todos, e especialmente, para os batizados: o programa de Economia Solidária não é um faz de conta paliativo e transitório, mas um modelo de desenvolvimento alternativo ao capitalismo neoliberal impregnado na nossa cultura.
RENÊ ROLDAN

EM TEMPO:Para quem tiver interesse em aprofundar o assunto, vale à pena acessar o endereço abaixo e conhecer um pouco mais dessa significativa experiência de economia solidária. http://redlases.files.wordpress.com/2008/02/pt2007_trocardevida_con_ecosol_hp.pdf